OUÇA – O fado de Carminho

por Pedro Zanotto (@pedrozanot)

Em vez de trazer músicas do “mainstream”, que ocupam as principais paradas mundiais, resolvi virar o disco e falar de um estilo musical que me conquistou e que carrega consigo uma gigantesca bagagem histórica. Para uma experiência plena, aconselho o leitor a livrar-se de preconceitos e tentar captar a atmosfera proposta pelo ritmo, apreciando cada música em sua totalidade. Espero que eu consiga te levar para o outro lado do Atlântico!

Se o Brasil tem o samba, a Argentina tem o tango e a Itália tem a tarantela, a música típica de Portugal é o fado. E não pense que ele ficou no passado e que é só “pra turista ver”. Os fadistas modernos mantêm viva a história desse ritmo e agregam a ele algum tempero contemporâneo. Eu já conhecia algumas artistas portuguesas, como Amália Rodrigues e Dulce Pontes, e acabei conhecendo a música de Carminho em solo português, no início de 2012. Não bastasse a melodia encantadora, o fado traz consigo um pouco da história de Portugal. Cheguei à música Marcha de Alfama, que fala do tradicional bairro de Alfama, em Lisboa, tratando dele ora como uma mulher que se arruma para sair e “só volta pra cama quando é madrugada”, ora como um bairro cheio de “becos, escadinhas, ruas estreitinhas” e “perfume de manjerico”.

Daí em diante, procurei mais sobre Carminho: com dois álbuns (Fado e Alma), a artista já é uma revelação do fado moderno, mantendo o romantismo e a sensibilidade dos fados mais antigos. Nos de temática portuguesa, meus favoritos são O Tejo Corre no Tejo (“não, Tejo, não és tu que em mim te vês; sou eu que em ti me vejo…”) e Carta a Lisboa (que consegue traduzir para música a atmosfera lisboeta ensolarada).

Carminho passa por outras temáticas, como quando canta o poema Saudades do Brasil em Portugal, de Vinícius de Moraes (quando ele estava com Amália Rodrigues em Portugal), e Bom dia Amor (Carta de Maria José), que é um poema de um heterônimo (feminino!) de Fernando Pessoa.

A música As Pedras da Minha Rua merece destaque: do álbum Alma, a canção constrói uma cena e traz as pedras como espectadoras da dor e da espera de uma personagem que aguarda seu/sua amante (“volta, amor, volta a pisar nestas pedras outra vez”). Além da maneira belíssima que essa história é contada, o clipe tem uma fotografia impecavelmente dramática, sem ser fake. Vale a pena assistir inteiro.

A Malva-Rosa de Carminho me lembra muito um conto – O Negro Bonifácio – do escritor gaúcho Simões Lopes Neto, no qual ele traz os versos feitos à personagem mais bonita da estória – a “Tudinha”: “…chinoca airosa, lindaça como o sol, fresca como uma rosa!…”. A de Carminho veste seu xaile (xale) cor de malva para sair de casa e deixa todos curiosos querendo saber aonde ela vai – na verdade, ela só vai à missa e ao mercado! A simplicidade e a inocência da canção casam com o encantamento dos violões do fado e criam uma música muito leve e agradável de se ouvir. Encontrei uma versão orquestrada dessa música, mas como a versão original é igualmente deliciosa, resolvi postar as duas: primeiro a original, depois aquela acompanhada da Orquestra das Beiras.

Por último, o dueto com o talentosíssimo espanhol Pablo Alborán, que não precisa de explicação, e outra música linda, Voltar a Ser, que é um consolo para as almas abaladas (“eu vou voltar a ver o lado bom das pessoas, essas coisas boas, antes de entristecer…”), quem nunca?

Eu poderia ainda falar de muitos outros fadistas, tão incríveis quanto Carminho, mas aí a pesquisa fica por conta do leitor! O maravilhoso de entrar em contato com uma cultura diferente é encantar-se com o poder criativo do ser humano, e passar a respeitar a pluralidade em todo seu esplendor.
Se você quer saber mais sobre cada música do álbum Alma, veja aqui a própria Carminho comentando cada faixa. Espero ter apresentado o fado com o respeito que ele merece. Fiquem com Amália, a rainha do fado, beijos e até quinta!

“(…) tem a ver com a energia que se sente e que os fadistas chamam de ‘acontecer o fado’, quando as pessoas estão disponíveis, não só para cantar, mas também para ouvir.” (Carminho)

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2 Responses to “OUÇA – O fado de Carminho”
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  1. […] refrões chiclé, batidas “do momento” e vocoder, não vai encontrar aqui. Do mesmo modo que no post sobre Fado, preciso que o leitor se entregue a uma sonoridade diferente, livre de preconceitos – […]

  2. […] de <a title=”Fado” href=”https://jefuckingadore.wordpress.com/2012/08/06/ouca-o-fado-de-carminho/&#8221; target=”_blank”>Fado</a>, <a title=”Hercules” […]



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