OUÇA – As Criaturas de McQueen

por Pedro Zanotto

Não se pode falar em Lee Alexander McQueen sem lembrar-se da ousadia dos desfiles da grife que leva seu nome, hoje dirigida por Sarah Burton. A morte dele, no começo de 2010, deixou uma lacuna que vai além da direção criativa da marca. Lee utilizava temas como suas raízes britânicas e a natureza para ressignificar o ato de vestir-se e desconstruir a silhueta idealizada, e para isso precisava de uma trilha sonora que criasse uma atmosfera condizente ao propósito de cada coleção. Escolhi as minhas trilhas favoritas e vou compartilhá-las aqui.

A Primavera/Verão feminina de 2009, chamada de “Natural Dis-tinction Un-Natural Selection”, brinca com a noção de Seleção Natural e a obra “A Origem das Espécies”, de Charles Darwin, agregando a elas a modernidade e a tecnologia. A trilha sonora, mostrando essa dualidade, começa com sons de animais e mistura-se à musica eletrônica, tambores e barulhos de rádio fora de sintonia. Animais e um globo terrestre que vira globo ocular – um olho – são o cenário do desfile que termina com o estilista rebolando e acenando, vestido de coelho. Li uma review incrível que faz comparações de alguns vestidos com lesmas do mar, como essa:

(Veja tudo aqui). A trilha é animada e até cômica no fim, quando as modelos chegam a sorrir! A dica é ser conceitual e sair por aí vestido de lesma do mar home made, será que rola? hihi

A coleção feminina Outono/Inverno de 2009 ganhou o nome de “The Horn of Plenty”, nome dado a um símbolo da abundância, conhecido no português por “cornucópia”. Trata-se de um chifre de onde saem frutas e flores, tendo sua origem provável na mitologia greco-romana, referindo-se à cabra que alimentou Zeus/Júpiter quando bebê. Cliquei uma escultura no Louvre segurando uma cornucópia, como símbolo de fartura e de riqueza:

A representação de McQueen, porém, foi uma pilha de entulho no cenário e, adereçando as modelos, sacolas plásticas, latas de refrigerante, calotas de carros e até tecidos que imitam plástico-bolha. A ironia do estilista ressignifica a abundância e a transforma em sinônimo de desperdício nos tempos modernos, lançando uma crítica aos excedentes de mercadorias da produção em escala industrial. A trilha sonora do desfile é acelerada e sugere a agitação de uma fábrica ou de uma cidade grande, enquanto as modelos, apáticas, caminham tranquilamente ao redor do entulho e sobre um chão que parece placas de vidro trincado. Violinos, tambores e lobos dão o drama e sons que mais parecem erros de computador se juntam à melodia, até que tudo termina com um barulho de monitor de frequência cardíaca no momento em que ele detecta a morte do paciente. A reunião de todas as modelos ocorre sob um fundo calmo e sem percussão, análogo à esperança frente aos problemas subjetivamente criticados pelo desfile. Lembrei na hora do álbum Homogenic, da Björk, que termina com Pluto (uma música agitadíssima e suicida – parecida com o clima agitado do começo do desfile) seguida de All Is Full of Love (que é a esperança diante da agonia da música anterior – o fim do desfile). Destaque para as peças em que McQueen apresenta estampas pied-de-poule que vão sendo desconstruídas e misturadas com vermelho até formarem figuras de pássaros (numa alusão ao artista holandês Escher).

Acima, as estampas de McQueen e uma parte de “Metamorfose”, de Escher


Alexander McQueen Womenswear Fall Winter 2009 2010 Full Fashion Show from Maximuh on Vimeo.

Na coleção Primavera/Verão 2010, chamada de “Plato’s Atlantis”, Lee foi além: as modelos enfrentaram penteados gigantescos, maquiagem de efeitos especiais para alterar as formas do rosto e saltos de cerca de 30 centímetros – conta-se que algumas modelos se recusaram a andar sobre os saltos “Armadillo” (tatu-bola, em tradução livre). O desfile é baseado na suposição de que os oceanos subirão e “a humanidade terá de voltar para onde veio”, assim como a história da lendária ilha de Atlântida, mencionada por Platão, que teria afundado após tentar, sem sucesso, invadir Atenas. A trilha sonora começa sem percussão e a gigantesca tela de LED mostra Raquel Zimmermann na areia – com os cabelos dispostos como os de uma medusa, personagem da mitologia grega -, contorcendo-se com serpentes passando sobre seu corpo NU! Esse “primeiro bloco” seria a Atlântida ainda emersa – as modelos têm penteados com tranças e partes mais soltas, as estampas lembram cobras e borboletas e algumas possuem tons de verde que lembram plantas, e podem-se ouvir sons de animais e tambores tribais. Num segundo momento – por volta dos 8 minutos -, as serpentes voltam à tela ao fundo para depois mostrar Raquel imersa em uma água escura, remetendo à Atlântida afundando no mar. Os penteados logo ficam mais imóveis, as estampas, agora brilhosas como se estivessem molhadas, brincam com o azul, enquanto a trilha traz sons de equipamentos de respiração subaquática, sons metálicos e violinos. Tudo termina com o lançamento da então inédita Bad Romance, de Lady Gaga. As estampas para esse desfile, algumas executadas pela designer Chinsky Cheung, ganharam destaque na matéria “Engenharia Fashion”, do portal Runway2Reality (veja aqui).

Esse desfile foi o último em que Lee acenou no fim. Aqui tem o vídeo (backdrop) inteirinho com Raquel, pelos maravilhosos do ShowStudio.

Alexander McQueen – Plato’s Atlantis from SHOWstudio on Vimeo.

Eu não poderia falar brevemente sobre alguém como Alexander McQueen. Para mim, um gênio, alguém que estava – e provavelmente está – a frente no modo de ver o mundo. Descanse em paz, Lee. Eu e mais um monte de gente sentimos sua falta.

*a maioria das informações veio do site oficial e nele, os desfiles estão sem áudio. Posso upar os arquivos de áudio e disponibilizar para download, se vocês pedirem pela página do JF*A no FB; o título do post refere-se a matérias que eu li na época de lançamento do Plato’s Atlantis.

INFORME EM EDIÇÃO EXTRAORDINÁRIA: Hoje à tarde rolou um show “intimista” da Madonna no teatro Olympia, em Paris. As últimas músicas nunca haviam sido cantadas nessa turnê: um mashup de Beautiful Killer (do último álbum) e Die Another Day (do American Life, de 2003) e uma versão de Je T’Aime Moi Non Plus, de Serge Gainsbourg e Jane Birkin (supostamente com os gemidos da Brigitte Bardot). Além disso, explicações quanto à polêmica com Marine Le Pen e participações do grupo basco Kalakan. Êxtase para os fãs, um espetáculo para os simpatizantes… Mais disso tudo semana que vem! Com amor, Pedro.

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